UNIVERSO LINGUÍSTICO DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

 

S. Tomé e Príncipe é um estado independente da África Ocidental, localizado no Golfo da Guiné. Compreende as ilhas de S. Tomé, do Príncipe e os ilhéus das Rolas ou de Gago Coutinho, das Cabras e das Pedras Tinhosas. Estas ilhas foram descobertas durante o reinado de D. Afonso V, entre 1469 e 1471, pelos portugueses João de Santarém e Pêro Escobar que as encontraram desabitadas.

 

Durante a colonização das ilhas, a partir de 1493, foram trazidos escravos provenientes da Guiné, Benin, Gabão e Angola para a cultura da cana-de-açúcar. Do seu contacto com os senhores portugueses surgiu um pidgin que, por sua vez,  deu lugar a crioulos que gradualmente se tornaram estáveis, sistemáticos e estruturados. O constante contacto com a língua portuguesa, minoritária, mas de prestígio, fez com ela se tornasse popular entre aqueles para os quais tinha sido inicialmente uma simples forma de comunicação limitada à condição social.

 

O facto de os escravos serem falantes de línguas diferentes, nomeadamente as línguas Kwa e o Bantu, permitiu que uma mesma língua de superstrato, o português, influenciasse estes substratos formando-se assim nestas ilhas uma situação étnica e linguística complexa que deu origem ao aparecimento de vários crioulos, o que é aliás já reconhecido no século XIX quando Lopes de Lima refere que o“…dialecto semi-bárbaro não é perfeitamente idêntico nas duas ilhas, mas difere em muitas palavras e sobretudo na pronunciação a ponto tal de os habitantes de uma ilha não entenderem bem os da outra…” Coelho (1880).

 

O universo linguístico do arquipélago de S. Tomé e Príncipe é composto por três crioulos e duas variedades do português (Espírito Santo 1983).

 

O crioulo São Tomense (também conhecido por Forro) e o Moncó são falados respectivamente na ilha de S. Tomé e na ilha do Príncipe. Ambos são filiados na língua portuguesa do século XV, tendo como substrato as línguas africanas Kwa, da região do Benim, e Bantu, da região do Congo. (93% do seu léxico é de origem portuguesa, enquanto que apenas 7% é de origem africana).

 

O Angolar, falado na parte ocidental e na parte oriental de S. Tomé, tem como base um dialecto do Umbundo, uma língua Bantu de povos do interior de Angola, e apresenta significativos empréstimos do português, principalmente a nível do léxico.

 

Estes três crioulos têm todos eles as línguas africanas Kwa e Bantu como línguas de substrato, embora sejam mais visíveis traços do Kwa no Moncó e traços do Bantu no Angolar (Ferraz 1979).

 

Existem ainda o Português Standard e a  Forma Santomense do Português. Esta caracteriza-se por algumas alterações em relação ao português standard que a aproximam da estrutura do crioulo, como por exemplo:

·      alterações sintácticas (eu estou a pensar você muito)

·      alterações morfológicas (eu não está a falar de você não; eu já fiz jantar; eu pedi você)

·      mistura de discursos (o que eu tenho a dizer você é faz favor de andar)

·      simplificação verbal (admirei de carne não presta)

 

Em S. Tomé é mais prestigiante falar português do que falar crioulo. O Português foi sempre considerado como a boa língua, a língua que era falada por aqueles que “tinham estudos”. Falar crioulo era sinónimo de analfabetismo, de pouca cultura; quem falava crioulo eram os habitantes das roças, e nem mesmo após a independência política do país em 1975 o crioulo adquiriu o estatuto que é devido a qualquer língua materna de qualquer povo.

 

A língua oficial da República Democrática de São Tomé e Príncipe é o Português.